📘 Practical Neurology 📅 2026 🧠 Neuroinfecção 🛡️ Autoimune ⏱ Leitura ~10 min

Encefalite Suspeita em Adultos

Auwal AM, Matthews R, Cook C, Sargent B, Easton A, Ray STJ, Ellul MA, Michael BD. Pract Neurol 2026;0:1–18. doi:10.1136/pn-2024-004299

💡 Mensagem central: diante de uma suspeita de encefalite, as causas infecciosa e autoimune devem ser investigadas simultaneamente desde a admissão. O tempo até o tratamento é o principal determinante prognóstico em ambos os cenários.

🎯 Definição e abordagem inicial

Encefalite é um processo inflamatório do parênquima encefálico, mais frequentemente por causas infecciosas e autoimunes. Apresenta-se como alteração subaguda do estado mental, podendo associar-se a febre, crises epilépticas ou déficits focais.

Critérios diagnósticos (modificados do International Encephalitis Consortium)

Critério maior (obrigatório)Critérios menores (≥2 necessários)
Alteração subaguda do estado mental (rebaixamento de consciência, letargia ou alteração comportamental) ou sintomas psiquiátricos com duração >24h, sem causa alternativa identificável • Febre ≥38°C nas 72h periadmissionais
• Crises (focais ou generalizadas) sem epilepsia prévia
• Novo déficit focal
• Pleocitose liquórica (≥5 cels/mm³)
• Achado agudo de neuroimagem compatível com encefalite
⚠ Atenção: a anamnese colhida junto ao familiar ou cuidador é essencial — o paciente flutua e tem insight limitado sobre o próprio estado mental.

🧠 Síndromes da encefalite autoimune — visão clinicopatológica

Figura 1a: principais síndromes de encefalite autoimune
Figure 1. Clinicopathological conception of autoimmune encephalitis. (a) Key clinical syndromes of autoimmune encephalitis, main brain regions affected, clinical features and examples of associated antibodies. ‘Lumping’ syndromes can help to guide diagnostic strategies, although ‘splitting’ into individual antibodies is also informative, particularly for tumour associations and relapse risk.
Figura 1b: alvos antigênicos neurogliais
Figure 1. Clinicopathological conception of autoimmune encephalitis. (b) Neuroglial antibody targets. Antibodies targeting neuronal surface/synaptic proteins can access and modulate their targets and generally respond to treatment. Intracellular antibodies cannot usually access their epitopes and are therefore probably epiphenomena of another pathogenic process, which may be T-cell driven. Other antibodies target the myelin sheath or glia. ADEM, acute disseminated encephalomyelitis; LGI-1, leucine-rich glioma inactivated 1; MOG, myelin oligodendrocyte glycoprotein; NMDAR, N-Methyl D aspartate receptor; NMO, neuromyelitis optica.

🧠 Síndromes topográficas e pistas etiológicas

Encefalite límbica

Déjà vu, alucinações olfatórias, amnésia anterógrada, crises temporais.
• Início agudo (horas a dias) → HSV-1
• Início subagudo (dias a semanas) → autoimune (LGI-1, CASPR2, GABA-B, AMPAR)

Encefalite anti-NMDAR

Pródromo gripal → mudança comportamental, psicose, discinesia orofacial, distúrbio do movimento, disautonomia, crises e coma. ♀:♂ = 4:1 Teratoma de ovário em ~37%.

Encefalite por LGI-1

Crises distônicas faciobraquiais (patognomônicas), alteração comportamental, comprometimento cognitivo e hiponatremia associada. Mais comum em homens idosos.

Síndrome de Morvan (CASPR2)

Tríade: disfunção do SNC + disautonomia + hiperexcitabilidade do nervo periférico. Predomínio masculino marcante (♂:♀ = 9:1). Associação com timoma em 20–50%.

Romboencefalite

Nervos cranianos, ataxia, hemiparesia. Listeria, Brucella, arbovírus, enterovírus (EV71). Autoimunes: Bickerstaff (anti-GQ1b), MOGAD, IgLON5, GFAP, anti-Hu, anti-Ma2, anti-Ri.

Envolvimento talâmico e dos núcleos da base

Declínio rápido da consciência associado a tremor parkinsoniano. Pensar em arbovírus: encefalite japonesa, vírus do Nilo Ocidental, encefalite equina oriental. Pode haver paralisia flácida aguda (cornos anteriores).

ADEM

Encefalopatia associada a sinais multifocais por desmielinização difusa da substância branca. Frequentemente pós-infecciosa ou pós-vacinal. ~50% têm anti-MOG positivo.

Encefalite de Rasmussen

Encefalite progressiva unilateral: hemiplegia, declínio cognitivo e epilepsia focal refratária. Rara, mas reconhecível.

🔑 Pistas para autoimune vs. infecciosa: coriza ou vacinação recente, distúrbio do movimento orofacial, neoplasia oculta, demografia típica (mulher jovem → NMDAR; homem idoso → LGI-1/CASPR2), crises distônicas faciobraquiais, hiponatremia e estado de mal epiléptico refratário de início recente favorecem causa autoimune. Pródromo coriza, febre flutuante, exantemas característicos, contatos doentes, exposição a vetores e imunossupressão favorecem causa infecciosa.

🔍 Sinais ao exame físico que sugerem etiologia

Figura 2: sinais ao exame físico em pacientes imunocompetentes
Figure 2. A diagram showing examination signs in immunocompetent patients, pointing towards an underlying cause. JEV, Japanese encephalitis virus; WNV, West Nile virus.
Figura 3: sinais ao exame físico em pacientes imunocomprometidos
Figure 3. A diagram showing examination signs in immunocompromised patients pointing towards an underlying cause. CMV, cytomegalovirus; EBV, Epstein-Barr virus; HHV-6, human herpes virus; VZV, varicella zoster virus.

🦠 Anticorpos autoimunes — superfície neuronal e sináptica

Antígenos de superfície são acessíveis ao anticorpo → patogenia direta → boa resposta à imunoterapia.

AnticorpoSíndromeNeoplasia associada
NMDARPródromo gripal, psicose, discinesia, disautonomia, comaTeratoma de ovário (37%)
LGI-1*Crises faciobraquiais distônicas, hiponatremia, encefalite límbica<10% (mama, tireoide, timoma)
CASPR2*Síndrome de Morvan, dor neuropática, ataxiaTimoma (20–50%)
GABA-AEncefalite, estado de mal epilépticoTimoma
GABA-BLímbica, ataxia, movimentos orolinguaisCarcinoma de pequenas células do pulmão (50%)
AMPAPerda súbita de memória, sintomas psiquiátricos~62% pulmão/timoma
DPPXDiarreia + perda ponderal + alteração cognitiva + hiperexcitabilidade do SNC~10% linfoma de células B
IgLON5*Distúrbio do sono, síndrome bulbar, instabilidade de marchaSem associação conhecida

* Subclasse IgG4 — não ativa complemento, apresentação subaguda, melhor resposta à depleção de células B.

Anticorpos paraneoplásicos / intracelulares / gliais

Antígenos intracelulares não são acessíveis ao anticorpo — provavelmente epifenômeno de processo mediado por células T → resposta pobre à imunoterapia; o tratamento depende fundamentalmente da ressecção tumoral.

AnticorpoSíndromeNeoplasia
Anti-Hu (ANNA1)Encefalite límbica + neuropatia autonômica/periféricaCarcinoma de pequenas células do pulmão (>90%)
Anti-Ri (ANNA2)Tronco encefálico + degeneração cerebelarPulmão, mama, bexiga (>60%)
Anti-Ma2Límbica, diencefálica, tronco encefálicoTumor germinativo testicular (>50%)
GAD-65Stiff-person, ataxia cerebelar, encefalite límbica
GFAPMeningoencefalite subaguda, mieliteLinfoma, adenocarcinoma de pulmão, teratoma de ovário
Receptor de glicinaPERM, mielopatia, stiff-person~10% timoma/linfoma
mGluR5Encefalite límbica com sintomas neuropsiquiátricosLinfoma de Hodgkin

🌡 Etiologias infecciosas

HSV-1

Causa mais comum de encefalite esporádica em todo o mundo. Tropismo temporal/insular.

VZV

Exantema vesicular dermatomérico; pode causar encefalite e vasculopatia.

Enterovírus

Inclui EV71 (mão-pé-boca, romboencefalite, paralisia flácida).

Arbovírus

Nilo Ocidental, encefalite japonesa, dengue, zika, chikungunya, equina oriental — tálamos/núcleos da base.

HIV

Soroconversão direta ou abertura de porta para oportunistas (Toxoplasma, CMV, JC, Cryptococcus).

Listeria

Romboencefalite — solicitar hemoculturas e culturas seriadas de LCR.

HHV-6B

Encefalite límbica aguda pós-transplante de células-tronco hematopoiéticas (semanas após).

M. tuberculosis

Considerar Xpert MTB/RIF Ultra no LCR em pacientes de risco.

Cryptococcus

Antígeno (CrAg) sérico/LCR — alta sensibilidade em imunossuprimidos.

🚫 Diferenciais — encefalopatia que não é encefalite

⚙ Toxico-metabólico
Síndrome neuroléptica maligna, síndrome serotoninérgica, intoxicação por anticolinérgicos, simpaticomiméticos e drogas ilícitas. Encefalopatias metabólicas (uremia, hepática, hiponatremia, hipoglicemia). Asterixis (mioclonia negativa) é pista clássica.
🩸 Vasculites do SNC
Vasculite primária do SNC ou secundária (LES, Sjögren, crioglobulinemia, AR). Investigar com FAN, anti-dsDNA, anti-Ro/La, crioglobulinas e biópsia tecidual.
🔬 Inflamatório/imunológico
Astrocitopatia GFAP (febre, cefaleia, alteração de consciência, realce leptomeníngeo); NMOSD (anti-AQP4); HLH (citopenias, ferritina >500, hipertrigliceridemia, fibrinogênio baixo); neurossarcoidose.
🎯 Neoplásico
Tumores do lobo temporal (glioma de baixo grau pode mimetizar HSV-1 — repetir a imagem mostra alterações estáticas em vez de evolutivas). Linfoma intravascular de grandes células (DHL e β2-microglobulina elevadas, citopenias).
🌀 Outros mimetizadores
Síndrome SMART (cefaleia + crises após irradiação craniana); HaNDL (cefaleia transitória + déficits + linfocitose liquórica); MELAS (acidose lática, lesões em territórios não vasculares); doença de Creutzfeldt-Jakob (curso subagudo, EEG/RM/LCR característicos).

🧪 Investigação laboratorial

Exames laboratoriais

Hemograma frequentemente normal — pode haver linfopenia (vírus) ou eosinofilia (fungos e helmintos). PCR sérica pode permanecer normal, pois a inflamação está confinada ao SNC. Sódio: hiponatremia em SIAD ou síndrome perdedora de sal cerebral (HSV) e em encefalite por LGI-1.

📌 Obrigatório: testagem de HIV em todos os pacientes com suspeita de infecção ou inflamação do SNC.

Líquor — análise inicial

A punção lombar é imperativa. Não é necessário aguardar coagulograma ou neuroimagem rotineiramente, exceto em diátese hemorrágica, uso de anticoagulantes ou antiplaquetários, imunossupressão ou sinais de hipertensão intracraniana com desvio de linha média.

ParâmetroViralBacterianaAutoimune
Pressão de aberturaNormal/elevadaElevadaNormal/elevada
Celularidade10–200 cels/μL — predomínio linfomononuclear (pode ser neutrofílico no início)Elevada, predomínio neutrofílicoPleocitose modesta — pode ser normal
Glicose LCR/plasmaNormalBaixaNormal
Proteína0,5–1,0 g/LElevadaElevada (notadamente em anti-NMDAR) — pode ser normal
XantocromiaPossível em HSV-1 e VZV
⚠ LCR normal NÃO exclui encefalite — cerca de 1/3 das encefalites autoimunes têm LCR de rotina inalterado, assim como uma parcela das virais. Repetir a punção em 48–72h se persistir suspeita clínica.

Painel viral por PCR

Mínimo: HSV-1, HSV-2, VZV e enterovírus. Painéis multiplex (ex.: BioFire) têm sensibilidade variável, sobretudo para vírus — em alta suspeita com PCR negativo, repetir com PCR singleplex.

Adicionais conforme contexto: EBV, CMV, HHV-6B e HHV-7 (imunossuprimidos); adenovírus, rotavírus e influenza (crianças); sarampo, caxumba, raiva, vírus do Nilo Ocidental, encefalite japonesa e encefalite por carrapato.

Mycobacterium tuberculosis: Xpert MTB/RIF. Cryptococcus: antígeno (CrAg). Listeria: hemoculturas seriadas.

Anticorpos autoimunes

Solicitar em soro e LCR pareados. A especificidade do LCR é maior, mas a sensibilidade do soro pode ser superior — LGI-1 e MOG podem ser falso-negativos no LCR.

Padrão-ouro: cell-based assay (CBA). Painéis de células fixas são úteis, mas têm falso-positivos (especialmente CASPR2 em baixos títulos). live cell-based assay e tissue-based assay podem ser usados como confirmatórios.

❌ Não solicitar mais: anticorpo contra canal de potássio voltagem-dependente (VGKC) — alta taxa de falso-positivo, sem valor adicional sobre LGI-1 e CASPR2.

EEG

Útil para identificar encefalopatia, estado de mal epiléptico não-convulsivo ou estado de mal motor sutil. O padrão de extreme delta brush (extreme delta brush) ocorre em alguns pacientes com encefalite por anti-NMDAR e prediz pior desfecho.

Outras investigações

PCR de amostras respiratórias (influenza, SARS-CoV-2, clamídias), de vesículas cutâneas (VZV, enterovírus) e swabs retais (enterovírus — atenção a portadores assintomáticos). Biópsia cerebral: reservada a casos refratários ou com suspeita de neoplasia. Sequenciamento metagenômico: ainda restrito a centros de pesquisa, promissor sobretudo em tecido encefálico e em imunossuprimidos.

🧲 Neuroimagem — principais achados

A TC de crânio é menos sensível, útil principalmente para excluir contraindicações à punção lombar. A RM com contraste é o exame de escolha para avaliar encefalite — sequências essenciais: T2, FLAIR, DWI e T1 com gadolínio.

Padrões clássicos

HSV-1

Hipersinal T2/FLAIR assimétrico bilateral em lobo temporal (anterior e medial) e ínsula. Restrição cortical à difusão. Pode haver hemorragia. Crianças podem ter padrão atípico extra-temporal.

Encefalite japonesa

Hipersinal T2 em tálamos bilateralmente e mesencéfalo, com restrição à difusão talâmica e cortical temporal. Padrão semelhante em outros arbovírus.

Encefalite por LGI-1

Hipersinal T2/FLAIR em lobo temporal medial, uni ou bilateral, podendo estender-se aos núcleos da base. RM pode ser normal — não exclui.

Anti-NMDAR

RM frequentemente normal ou inespecífica. Pode haver hipersinal sutil em hipocampo, córtex insular ou frontobasal.

ADEM

Múltiplas lesões na substância branca — periventricular e subcortical —, podendo envolver tronco encefálico, cerebelo e medula. MOGAD: pode ter padrão de encefalite cortical com hipersinal cortical em FLAIR.

Astrocitopatia GFAP

Realce leptomeníngeo radial perivascular ("padrão estriado") — pista importante.

Quando considerar PET-CT FDG

Útil em alta suspeita clínica com RM normal, ou em encefalite autoimune soronegativa. PET-CT corporal é obrigatório para rastreamento de neoplasia oculta em pacientes com anticorpos com associação tumoral (Hu, Ma2, GABA-B, AMPA, etc.).

📷 Galeria de imagens — casos do artigo

Figura 4: encefalite japonesa — hipersinal talâmico bilateral
Figure 4. Images from a confirmed case of Japanese encephalitis showing (a) T2 hyperintensity involving bilateral thalami and midbrain and (b) cortical restricted diffusion in the left medial temporal lobe and patchy restricted diffusion in bilateral thalami.
Figura 5: encefalite herpética em homem de 72 anos
Figure 5. Imaging of a 72-year-old man presenting with acute confusion, later diagnosed with herpes simplex encephalitis. (a) CT scan of head showing cortical and subcortical white matter hypodensity affecting the anterior and medial right temporal lobe, right insula and left medial temporal lobe. (b) MR scan of brain showing asymmetric bilateral temporal lobe T2 hyperintensity with cortical restricted diffusion. (c) MR scan of brain 12 months later showing marked gliosis of the right antero-medial temporal lobe and right insula.
Figura 6: encefalite por LGI-1 em homem de 55 anos
Figure 6. MR scan of brain a 55-year-old man with LGI-1 encephalitis (a) Axial T2 weighted and (b) Coronal T2 FLAIR, all showing high signal changes in the left temporal lobe. FLAIR, Fluid Attenuation Inversion Recovery; LGI-1, leucine-rich glioma inactivated 1.

💊 Tratamento empírico imediato

⏱ Janela crítica: aciclovir IV deve ser iniciado nas primeiras 6h e certamente nas primeiras 24h da admissão. O tempo até o tratamento é o principal preditor de desfecho.

Aciclovir

10 mg/kg IV a cada 8h (peso ideal). Ajustar à função renal (risco de nefropatia por cristais). Em VZV confirmado, alguns sugerem 15 mg/kg 8/8h baseados em dados in vitro (evidência clínica limitada).

Duração

  • Imunocompetentes: 14 dias
  • Imunocomprometidos: 21 dias
  • Considerar PCR de controle ao final do curso, sobretudo se houver pouca melhora clínica ou imunossupressão

Quando suspender o aciclovir

  • Diagnóstico alternativo confirmado, OU
  • PCR de HSV negativo no LCR ≥72h após início dos sintomas E em duas ocasiões com 48h de intervalo, OU
  • RM (>48h após início) e/ou EEG não característicos de HSV

Outros agentes etiotrópicos

AgentePatógeno
Ganciclovir, foscarnet ou cidofovirCMV, HHV-6B
OseltamivirInfluenza
RibavirinaSarampo
Aciclovir é INEFICAZ emEnterovírus, vírus do Nilo Ocidental, encefalite equina oriental — suspender

Suporte e complicações

As crises podem ser refratárias — escores estratificam risco, mas não há evidência robusta para profilaxia primária ou para escolha de medicação específica. Em edema cerebral significativo: corticoide, manitol/salina hipertônica e cabeceira a 30°. Hemicraniectomia descompressiva já foi relatada em casos selecionados.

Ensaio randomizado recente DexEnceph (Solomon T et al, Lancet Neurol 2026): dexametasona adjuvante em encefalite por HSV não mostrou benefício significativo sobre placebo.

🧬 Tratamento da encefalite autoimune

Considerar imunoterapia precoce quando há suspeita clínica desde o início — o tempo até a imunoterapia impacta o prognóstico. A conduta se reforça quando há PCR viral no LCR negativo associada a autoanticorpos positivos e imagem sugestiva.

Primeira linha

1
Metilprednisolona IV

1 g/dia por 3–7 dias, seguida ou combinada a:

2
Plasmaférese (PLEX) — 5 a 10 sessões em dias alternados

OU

3
Imunoglobulina humana IV (IGIV)

2 g/kg em 2–5 dias. Considerar prednisona oral em desmame.

Segunda linha (se ausência de resposta clínica clara em 2–4 semanas)

Rituximabe

Forte recomendação como continuação após pulsos de corticoide, PLEX ou IGIV na encefalite por anti-NMDAR. Reduz o risco de recidiva em LGI-1.

Ciclofosfamida

Alternativa ocasional, sobretudo em casos refratários.

Terceira linha — refratários

Considerar em discussão multidisciplinar especializada: tocilizumabe (anti-IL-6) e bortezomibe (inibidor de proteassoma).

Considerações específicas por anticorpo

  • Anti-NMDAR: investigar e ressecar urgentemente teratoma; rituximabe precoce reduz recaída.
  • LGI-1: resposta frequentemente boa à primeira linha ou mesmo a corticoide isolado; rituximabe reduz recaída.
  • Paraneoplásica intracelular (Hu, Ma): imunoterapia geralmente pouco eficaz — foco na ressecção tumoral.
  • Soronegativa "provável": mesmos princípios, mas exigir evidência objetiva de melhora (cognição, EEG, RM ou frequência de crises) antes de escalonar.
🔁 Recaída: 12–35% nas encefalites por NMDAR e LGI-1. A imunoterapia de manutenção por 1–2 anos é frequentemente considerada aceitável. Biomarcadores de risco de recaída ainda são uma necessidade não atendida.

🧭 Algoritmo interativo de manejo (Figura 7)

Algoritmo para investigação e manejo do adulto com encefalite suspeita e confirmada. Clique em cada caixa para expandir os detalhes. As cores seguem a categorização do artigo original.

Figure 7: original algorithm for suspected and confirmed adult encephalitis
Figure 7. An algorithm for investigating and managing adults with suspected and confirmed encephalitis. *Dose may need increasing to 15mg/Kg if VZV is confirmed on PCR. AE, Autoimmune Encephalitis; CSF, cerebrospinal fluid; DWI, Diffusion Weighted Imaging; EEG, electroencephalogram; HSV, herpes simplex virus; LP, lumbar puncture; MC&S, Microscopy, Culture & Sensitivity; MDT, multidisciplinary team; NMDAR, N-methyl D aspartate receptor; RBC, Red Blood Cells; VZV, varicella zoster virus; WBC, white blood cell.
Avaliação clínica
Investigações
Tratamentos

🔎 Suspeita de encefalite

📋 Características clínicas sugestivas de encefalite (Box 1)
+
Alteração subaguda do estado mental (rebaixamento de consciência, letargia, alteração comportamental ou sintomas psiquiátricos) com duração >24h, associada a pelo menos 2 dos seguintes: febre ≥38°C nas 72h periadmissionais, crises sem epilepsia prévia, novo déficit focal, pleocitose liquórica (≥5 cels/mm³) ou anormalidade aguda em neuroimagem.
🩺 História e exame recomendados (Box 2, Figuras 1 e 2)
+
Anamnese colhida junto ao familiar ou cuidador. Pesquisar: exposições (vetores, contatos doentes, viagem a área endêmica), pródromos, vacinação recente, imunossupressão, drogas, comorbidades. Exame: sinais cutâneos, neurológicos focais, sinais de imunossupressão (ver Figuras 2 e 3).
❓ Alta suspeita clínica de encefalite?
+
NÃO Considerar outros diagnósticos diferenciais de encefalopatia (ver aba "Etiologia").
SIM Prosseguir para tratamento empírico e investigação imediatos (próximos passos abaixo).
💉 Iniciar aciclovir IV (10 mg/kg) 8/8h o mais rápido possível *
+
Dose calculada pelo peso ideal e ajustada à função renal. Iniciar idealmente nas primeiras 6h e certamente nas primeiras 24h da admissão.
* A dose pode ser aumentada para 15 mg/kg se VZV for confirmado em PCR.

Investigações em paralelo:

🔍 Há contraindicações clínicas à punção lombar imediata?
+
Contraindicações relativas: diátese hemorrágica, uso de anticoagulantes/antiplaquetários, imunossupressão, sinais de hipertensão intracraniana com desvio de linha média.
NÃO Realizar PL imediatamente (ver caixa "Punção lombar" abaixo).
SIM TC de crânio urgente. Se sem contraindicações radiológicas → PL. Se contraindicações persistirem → reavaliar a cada 24h.
💧 Punção lombar
+
Coletar e medir:
  • Pressão de abertura
  • Celularidade total e diferencial (WBC, RBC)
  • Microscopia, cultura e sensibilidade (MC&S)
  • Proteína, glicose
  • Painel viral por PCR (HSV-1 e 2, VZV, enterovírus)
  • Amostras adicionais armazenadas para testes complementares
Se alta suspeita de encefalite autoimune: enviar anticorpos para encefalite autoimune (Tabelas 1 e 2) e bandas oligoclonais.
🧠 Neuroimagem (idealmente em 48–72h)
+
Realizar o quanto antes (idealmente nas primeiras 48–72h). Se houver atraso na RM, obter TC de crânio primeiro.

RM de crânio com contraste em todos os pacientes com suspeita de encefalite. Sequências essenciais: T2, DWI e FLAIR.
📈 Considerar EEG em todos (idealmente em 48–72h)
+
Especialmente naqueles com:
  • Confusão ou rebaixamento de consciência (excluir crises subclínicas e estado de mal não-convulsivo)
  • Estado mental alterado com incerteza sobre causa psiquiátrica vs. orgânica — evidência de processo encefalopático subjacente é útil
🩸 Exames laboratoriais
+
Glicose pareada com LCR, hemocultura, virologia (incluindo HIV), anticorpos para encefalite autoimune e bandas oligoclonais pareadas conforme apropriado. Considerar testes etiológicos adicionais conforme contexto epidemiológico.
🔁 Considerar repetir PL em 48h se LCR inicial não-diagnóstico e alta suspeita clínica de encefalite viral
+
Cerca de 1/3 das encefalites autoimunes e parte das virais têm LCR de rotina inalterado inicialmente. PCR pode estar negativo nos primeiros dias ou após início do aciclovir — repetir LP em 48–72h enquanto mantém o aciclovir.
🛑 Quando interromper o aciclovir IV?
+
Aciclovir IV pode ser interrompido se TODOS os critérios abaixo forem atendidos:
  • Baixa suspeita clínica de encefalite por HSV ou diagnóstico alternativo estabelecido E
  • PCR para HSV no LCR negativo (com PL realizada >72h após início do quadro) OU PCR negativo em duas ocasiões com 48h de intervalo E
  • Se realizadas, RM (>48h após início) e/ou EEG não característicos de encefalite por HSV
❓ Achados de LCR, neuroimagem ou EEG sugestivos de encefalite?
+
NÃO Diagnóstico alternativo. Considerar suspender aciclovir IV. Discussão com neurologia ou infectologia.
SIM Encefalite confirmada — seguir para o bloco abaixo.

✅ Encefalite confirmada

Conduta diferenciada conforme dois grandes cenários:

🦠 Cenário A — Encefalite por HSV / VZV confirmada
+
Manter conduta antiviral conforme passos abaixo.
💊 Manter aciclovir IV por 14 dias (ou 21 dias se imunocomprometido)
+
  • Monitorar toxicidade renal e neutropenia
  • Se deterioração clínica em 48–72h: considerar edema cerebral, crises e toxicidade neurológica do aciclovir
  • Considerar repetir RM e EEG seriados
🔬 Considerar repetir LCR (PCR e celularidade) após 14 dias
+
  • Em imunocompetentes com melhora clínica significativa: considerar suspender aciclovir após 14 dias se PCR negativo
  • Se PCR persistentemente positivo: decisão de manter aciclovir e a duração devem ser guiadas pela evolução clínica, em discussão com infectologia
  • Considerar resistência ao aciclovir se melhora clínica limitada
⚠ Em recidiva pós-aciclovir
+
  • Repetir LCR para PCR viral e autoanticorpos da encefalite autoimune (especialmente anti-NMDAR pós-HSV)
  • Considerar novo curso de aciclovir IV e monitorar resposta
  • Se diagnosticada encefalite autoimune secundária a viral: tratar como encefalite autoimune primária

🛡 Cenário B — Encefalite autoimune (provável ou confirmada)
+
Aplicável a:
  • Características clínicas sugestivas de encefalite autoimune (Box 2), OU
  • Encefalite autoimune autoanticorpo-positivo confirmada (Tabelas 1 e 2), OU
  • Encefalite autoimune autoanticorpo-negativa provável + PCR viral negativo no LCR
Pacientes com autoanticorpos com associação tumoral conhecida devem ser rastreados apropriadamente (Tabelas 1 e 2).

→ Discussão com neurologia.
🥇 Iniciar imunoterapia de PRIMEIRA LINHA
+
Metilprednisolona IV (1 g/dia por 3–7 dias) com plasmaférese (PLEX) — 5 a 10 sessões diárias ou em dias alternados
OU
Metilprednisolona IV (1 g/dia por 3–7 dias) com imunoglobulina IV (IGIV) — 2 g/kg em 2–5 dias

Considerar curso oral de prednisolona em desmame.
Considerar suspender aciclovir IV (se já cumpridos critérios para encefalite por HSV negativo).

→ Continuar reavaliando a certeza diagnóstica de encefalite autoimune.

Discussão com neurologia.

🥈 Iniciar imunoterapia de SEGUNDA LINHA
+
  • Considerar se ausência de resposta clínica clara ou substancial após 2–4 semanas de primeira linha
  • A terapia específica pode ser guiada pelo subtipo de anticorpo, sendo o rituximabe o mais comum
  • Rituximabe é fortemente recomendado em encefalite por anti-NMDAR como continuação após corticoide/PLEX/IGIV
  • Considerar repetir RM de crânio e EEG seriados em deterioração clínica
🥉 Iniciar imunoterapia de TERCEIRA LINHA
+
Considerar encaminhamento para equipe multidisciplinar (MDT) especializada em encefalite autoimune, guiada por opinião de especialistas.
Opções relatadas em casos refratários: tocilizumabe (anti-IL-6) e bortezomibe (inibidor de proteassoma).

🔄 Encefalite autoimune pós-HSV

A recidiva neurológica semanas após encefalite por HSV pode dever-se a replicação viral persistente ou a síndrome autoimune pós-infecciosa, mais frequentemente associada a anticorpos contra NMDAR. Manifestações: coreoatetose e sintomas comportamentais ou psicóticos.

Atenção: o anti-NMDAR pode ser detectado no soro de até 1/3 dos pacientes pós-HSV sem indicar encefalite autoimune ativa — testar no LCR e interpretar no contexto clínico para distinguir de sequelas de injúria cerebral adquirida (epilepsia, déficit cognitivo).

📊 Mortalidade e sequelas

A mortalidade geral varia entre 5% e 40%, dependendo da etiologia, da gravidade e — crucialmente — do tempo até o início do tratamento.

Sequelas frequentes

EpilepsiaComum
Déficit cognitivoComum
FadigaComum
Alteração comportamentalFrequente
Distúrbios emocionaisFrequente
🧩 Limitação das escalas globais: sequelas neurocognitivas e neuropsiquiátricas sutis — sobretudo após encefalite autoimune — são cada vez mais reconhecidas. Pacientes podem pontuar bem em escalas como Rankin modificada e ainda assim apresentar prejuízo significativo na vida real.

Reabilitação multidisciplinar ideal

Neurologia

Acompanhamento longitudinal, controle de crises e ajuste da imunoterapia.

Terapia ocupacional

Reintegração funcional, AVDs, retorno ao trabalho ou estudo.

Fonoaudiologia

Linguagem, deglutição e comunicação.

Neuropsicologia

Avaliação cognitiva detalhada e reabilitação.

Psiquiatria

Sintomas afetivos, comportamentais e psicóticos pós-encefalíticos.

Suporte ao cuidador

O impacto familiar é significativo — não negligenciar.

Pacientes e familiares podem ser direcionados a organizações como Encephalitis International (www.encephalitis.info) para suporte e informação.

📝 Fixação — 5 perguntas rápidas

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1. Mulher de 28 anos com pródromo gripal seguido de psicose, discinesia orofacial, crises e disautonomia. Conduta inicial mais apropriada?

2. Sobre a punção lombar na suspeita de encefalite, é INCORRETO afirmar:

3. Crises distônicas faciobraquiais associadas a hiponatremia em homem de 65 anos sugerem encefalite por:

4. Em relação ao aciclovir empírico na suspeita de encefalite viral, NÃO é correto afirmar:

5. Sobre encefalite paraneoplásica por anticorpos contra antígenos intracelulares (ex.: anti-Hu, anti-Ma2):

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