Auwal AM, Matthews R, Cook C, Sargent B, Easton A, Ray STJ, Ellul MA, Michael BD. Pract Neurol 2026;0:1–18. doi:10.1136/pn-2024-004299
Encefalite é um processo inflamatório do parênquima encefálico, mais frequentemente por causas infecciosas e autoimunes. Apresenta-se como alteração subaguda do estado mental, podendo associar-se a febre, crises epilépticas ou déficits focais.
| Critério maior (obrigatório) | Critérios menores (≥2 necessários) |
|---|---|
| Alteração subaguda do estado mental (rebaixamento de consciência, letargia ou alteração comportamental) ou sintomas psiquiátricos com duração >24h, sem causa alternativa identificável |
• Febre ≥38°C nas 72h periadmissionais • Crises (focais ou generalizadas) sem epilepsia prévia • Novo déficit focal • Pleocitose liquórica (≥5 cels/mm³) • Achado agudo de neuroimagem compatível com encefalite |
Déjà vu, alucinações olfatórias, amnésia anterógrada, crises temporais.
• Início agudo (horas a dias) → HSV-1
• Início subagudo (dias a semanas) → autoimune (LGI-1, CASPR2, GABA-B, AMPAR)
Pródromo gripal → mudança comportamental, psicose, discinesia orofacial, distúrbio do movimento, disautonomia, crises e coma. ♀:♂ = 4:1 Teratoma de ovário em ~37%.
Crises distônicas faciobraquiais (patognomônicas), alteração comportamental, comprometimento cognitivo e hiponatremia associada. Mais comum em homens idosos.
Tríade: disfunção do SNC + disautonomia + hiperexcitabilidade do nervo periférico. Predomínio masculino marcante (♂:♀ = 9:1). Associação com timoma em 20–50%.
Nervos cranianos, ataxia, hemiparesia. Listeria, Brucella, arbovírus, enterovírus (EV71). Autoimunes: Bickerstaff (anti-GQ1b), MOGAD, IgLON5, GFAP, anti-Hu, anti-Ma2, anti-Ri.
Declínio rápido da consciência associado a tremor parkinsoniano. Pensar em arbovírus: encefalite japonesa, vírus do Nilo Ocidental, encefalite equina oriental. Pode haver paralisia flácida aguda (cornos anteriores).
Encefalopatia associada a sinais multifocais por desmielinização difusa da substância branca. Frequentemente pós-infecciosa ou pós-vacinal. ~50% têm anti-MOG positivo.
Encefalite progressiva unilateral: hemiplegia, declínio cognitivo e epilepsia focal refratária. Rara, mas reconhecível.
Antígenos de superfície são acessíveis ao anticorpo → patogenia direta → boa resposta à imunoterapia.
| Anticorpo | Síndrome | Neoplasia associada |
|---|---|---|
| NMDAR | Pródromo gripal, psicose, discinesia, disautonomia, coma | Teratoma de ovário (37%) |
| LGI-1* | Crises faciobraquiais distônicas, hiponatremia, encefalite límbica | <10% (mama, tireoide, timoma) |
| CASPR2* | Síndrome de Morvan, dor neuropática, ataxia | Timoma (20–50%) |
| GABA-A | Encefalite, estado de mal epiléptico | Timoma |
| GABA-B | Límbica, ataxia, movimentos orolinguais | Carcinoma de pequenas células do pulmão (50%) |
| AMPA | Perda súbita de memória, sintomas psiquiátricos | ~62% pulmão/timoma |
| DPPX | Diarreia + perda ponderal + alteração cognitiva + hiperexcitabilidade do SNC | ~10% linfoma de células B |
| IgLON5* | Distúrbio do sono, síndrome bulbar, instabilidade de marcha | Sem associação conhecida |
* Subclasse IgG4 — não ativa complemento, apresentação subaguda, melhor resposta à depleção de células B.
Antígenos intracelulares não são acessíveis ao anticorpo — provavelmente epifenômeno de processo mediado por células T → resposta pobre à imunoterapia; o tratamento depende fundamentalmente da ressecção tumoral.
| Anticorpo | Síndrome | Neoplasia |
|---|---|---|
| Anti-Hu (ANNA1) | Encefalite límbica + neuropatia autonômica/periférica | Carcinoma de pequenas células do pulmão (>90%) |
| Anti-Ri (ANNA2) | Tronco encefálico + degeneração cerebelar | Pulmão, mama, bexiga (>60%) |
| Anti-Ma2 | Límbica, diencefálica, tronco encefálico | Tumor germinativo testicular (>50%) |
| GAD-65 | Stiff-person, ataxia cerebelar, encefalite límbica | — |
| GFAP | Meningoencefalite subaguda, mielite | Linfoma, adenocarcinoma de pulmão, teratoma de ovário |
| Receptor de glicina | PERM, mielopatia, stiff-person | ~10% timoma/linfoma |
| mGluR5 | Encefalite límbica com sintomas neuropsiquiátricos | Linfoma de Hodgkin |
Causa mais comum de encefalite esporádica em todo o mundo. Tropismo temporal/insular.
Exantema vesicular dermatomérico; pode causar encefalite e vasculopatia.
Inclui EV71 (mão-pé-boca, romboencefalite, paralisia flácida).
Nilo Ocidental, encefalite japonesa, dengue, zika, chikungunya, equina oriental — tálamos/núcleos da base.
Soroconversão direta ou abertura de porta para oportunistas (Toxoplasma, CMV, JC, Cryptococcus).
Romboencefalite — solicitar hemoculturas e culturas seriadas de LCR.
Encefalite límbica aguda pós-transplante de células-tronco hematopoiéticas (semanas após).
Considerar Xpert MTB/RIF Ultra no LCR em pacientes de risco.
Antígeno (CrAg) sérico/LCR — alta sensibilidade em imunossuprimidos.
Hemograma frequentemente normal — pode haver linfopenia (vírus) ou eosinofilia (fungos e helmintos). PCR sérica pode permanecer normal, pois a inflamação está confinada ao SNC. Sódio: hiponatremia em SIAD ou síndrome perdedora de sal cerebral (HSV) e em encefalite por LGI-1.
A punção lombar é imperativa. Não é necessário aguardar coagulograma ou neuroimagem rotineiramente, exceto em diátese hemorrágica, uso de anticoagulantes ou antiplaquetários, imunossupressão ou sinais de hipertensão intracraniana com desvio de linha média.
| Parâmetro | Viral | Bacteriana | Autoimune |
|---|---|---|---|
| Pressão de abertura | Normal/elevada | Elevada | Normal/elevada |
| Celularidade | 10–200 cels/μL — predomínio linfomononuclear (pode ser neutrofílico no início) | Elevada, predomínio neutrofílico | Pleocitose modesta — pode ser normal |
| Glicose LCR/plasma | Normal | Baixa | Normal |
| Proteína | 0,5–1,0 g/L | Elevada | Elevada (notadamente em anti-NMDAR) — pode ser normal |
| Xantocromia | Possível em HSV-1 e VZV | — | — |
Mínimo: HSV-1, HSV-2, VZV e enterovírus. Painéis multiplex (ex.: BioFire) têm sensibilidade variável, sobretudo para vírus — em alta suspeita com PCR negativo, repetir com PCR singleplex.
Adicionais conforme contexto: EBV, CMV, HHV-6B e HHV-7 (imunossuprimidos); adenovírus, rotavírus e influenza (crianças); sarampo, caxumba, raiva, vírus do Nilo Ocidental, encefalite japonesa e encefalite por carrapato.
Mycobacterium tuberculosis: Xpert MTB/RIF. Cryptococcus: antígeno (CrAg). Listeria: hemoculturas seriadas.
Solicitar em soro e LCR pareados. A especificidade do LCR é maior, mas a sensibilidade do soro pode ser superior — LGI-1 e MOG podem ser falso-negativos no LCR.
Padrão-ouro: cell-based assay (CBA). Painéis de células fixas são úteis, mas têm falso-positivos (especialmente CASPR2 em baixos títulos). live cell-based assay e tissue-based assay podem ser usados como confirmatórios.
Útil para identificar encefalopatia, estado de mal epiléptico não-convulsivo ou estado de mal motor sutil. O padrão de extreme delta brush (extreme delta brush) ocorre em alguns pacientes com encefalite por anti-NMDAR e prediz pior desfecho.
PCR de amostras respiratórias (influenza, SARS-CoV-2, clamídias), de vesículas cutâneas (VZV, enterovírus) e swabs retais (enterovírus — atenção a portadores assintomáticos). Biópsia cerebral: reservada a casos refratários ou com suspeita de neoplasia. Sequenciamento metagenômico: ainda restrito a centros de pesquisa, promissor sobretudo em tecido encefálico e em imunossuprimidos.
A TC de crânio é menos sensível, útil principalmente para excluir contraindicações à punção lombar. A RM com contraste é o exame de escolha para avaliar encefalite — sequências essenciais: T2, FLAIR, DWI e T1 com gadolínio.
Hipersinal T2/FLAIR assimétrico bilateral em lobo temporal (anterior e medial) e ínsula. Restrição cortical à difusão. Pode haver hemorragia. Crianças podem ter padrão atípico extra-temporal.
Hipersinal T2 em tálamos bilateralmente e mesencéfalo, com restrição à difusão talâmica e cortical temporal. Padrão semelhante em outros arbovírus.
Hipersinal T2/FLAIR em lobo temporal medial, uni ou bilateral, podendo estender-se aos núcleos da base. RM pode ser normal — não exclui.
RM frequentemente normal ou inespecífica. Pode haver hipersinal sutil em hipocampo, córtex insular ou frontobasal.
Múltiplas lesões na substância branca — periventricular e subcortical —, podendo envolver tronco encefálico, cerebelo e medula. MOGAD: pode ter padrão de encefalite cortical com hipersinal cortical em FLAIR.
Realce leptomeníngeo radial perivascular ("padrão estriado") — pista importante.
Útil em alta suspeita clínica com RM normal, ou em encefalite autoimune soronegativa. PET-CT corporal é obrigatório para rastreamento de neoplasia oculta em pacientes com anticorpos com associação tumoral (Hu, Ma2, GABA-B, AMPA, etc.).
10 mg/kg IV a cada 8h (peso ideal). Ajustar à função renal (risco de nefropatia por cristais). Em VZV confirmado, alguns sugerem 15 mg/kg 8/8h baseados em dados in vitro (evidência clínica limitada).
| Agente | Patógeno |
|---|---|
| Ganciclovir, foscarnet ou cidofovir | CMV, HHV-6B |
| Oseltamivir | Influenza |
| Ribavirina | Sarampo |
| Aciclovir é INEFICAZ em | Enterovírus, vírus do Nilo Ocidental, encefalite equina oriental — suspender |
As crises podem ser refratárias — escores estratificam risco, mas não há evidência robusta para profilaxia primária ou para escolha de medicação específica. Em edema cerebral significativo: corticoide, manitol/salina hipertônica e cabeceira a 30°. Hemicraniectomia descompressiva já foi relatada em casos selecionados.
Ensaio randomizado recente DexEnceph (Solomon T et al, Lancet Neurol 2026): dexametasona adjuvante em encefalite por HSV não mostrou benefício significativo sobre placebo.
Considerar imunoterapia precoce quando há suspeita clínica desde o início — o tempo até a imunoterapia impacta o prognóstico. A conduta se reforça quando há PCR viral no LCR negativo associada a autoanticorpos positivos e imagem sugestiva.
1 g/dia por 3–7 dias, seguida ou combinada a:
OU
2 g/kg em 2–5 dias. Considerar prednisona oral em desmame.
Forte recomendação como continuação após pulsos de corticoide, PLEX ou IGIV na encefalite por anti-NMDAR. Reduz o risco de recidiva em LGI-1.
Alternativa ocasional, sobretudo em casos refratários.
Considerar em discussão multidisciplinar especializada: tocilizumabe (anti-IL-6) e bortezomibe (inibidor de proteassoma).
Algoritmo para investigação e manejo do adulto com encefalite suspeita e confirmada. Clique em cada caixa para expandir os detalhes. As cores seguem a categorização do artigo original.
Investigações em paralelo:
Conduta diferenciada conforme dois grandes cenários:
Discussão com neurologia.
A recidiva neurológica semanas após encefalite por HSV pode dever-se a replicação viral persistente ou a síndrome autoimune pós-infecciosa, mais frequentemente associada a anticorpos contra NMDAR. Manifestações: coreoatetose e sintomas comportamentais ou psicóticos.
Atenção: o anti-NMDAR pode ser detectado no soro de até 1/3 dos pacientes pós-HSV sem indicar encefalite autoimune ativa — testar no LCR e interpretar no contexto clínico para distinguir de sequelas de injúria cerebral adquirida (epilepsia, déficit cognitivo).
A mortalidade geral varia entre 5% e 40%, dependendo da etiologia, da gravidade e — crucialmente — do tempo até o início do tratamento.
Acompanhamento longitudinal, controle de crises e ajuste da imunoterapia.
Reintegração funcional, AVDs, retorno ao trabalho ou estudo.
Linguagem, deglutição e comunicação.
Avaliação cognitiva detalhada e reabilitação.
Sintomas afetivos, comportamentais e psicóticos pós-encefalíticos.
O impacto familiar é significativo — não negligenciar.
Pacientes e familiares podem ser direcionados a organizações como Encephalitis International (www.encephalitis.info) para suporte e informação.
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NeuroHouse · @neurohousebr · Resumo educacional baseado em Auwal AM et al. Practical Neurology 2026.
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Conteúdo destinado a profissionais e estudantes de saúde. Não substitui a leitura do artigo original nem o julgamento clínico individual.

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